Os Peregrinos

O caminho não é novo... O novo está em nós, no nosso jeito de caminhar!

VOCAÇÃO: JUVENTUDE

Creio que, ao sermos perguntados sobre o que é vocação, qualquer um/a dirá que é uma palavra proveniente do latim “vocare” e significa “chamado”. Bom... Isso é o básico que aprendemos na catequese e/ou nas escolinhas dominicais, não é!?! Mas, se nos perguntarem: “chamadas/os a quê?”; aí vai embolar o meio-de-campo.

O mais provável é alguém dizer que somos chamados a ser engenheiros, médicas, psicólogas, arquitetos... Claro, empregos bons de preferência, porque em teste vocacional de faculdade nunca aparece balconista, servente de pedreiro, ou gari.

Mas vocação está mesmo atrelada a sucesso profissional? Viver a vocação é uma realização pessoal? Não é de um chamado que estamos falando? Quando alguém nos chama, é para que seja satisfeita a nossa necessidade, ou a de outrem?

Folheando a Bíblia, temos várias vocações. Vamos olhar uma mais de perto: a vocação de Moisés. Ela está em Ex 2,23-4,17, mas não precisamos ler tudo de início. Para começar, basta irmos até o cap. 3, v. 10. O Deus que aí encontramos vê a miséria de um povo, ouve o seu clamor, desce, age... Ele está presente, de forma atuante, junto desse povo. Mas de que forma Ele atua? Deus diz que vai libertar o povo, mas manda Moisés ir ao Faraó. Ora, quem vai libertar o povo? É Deus ou Moisés?

O modo de Deus atender o clamor do povo é acionando Moisés. A vocação, o chamado de Moisés é ir ao centro da opressão (Egito) e dizer ao opressor (Faraó) que deixe o povo partir. Tarefa fácil??? Sabemos que não... Mas o que convém destacar aqui é que...

A vocação de Moisés é a resposta de Deus ao clamor de um povo.

Ah... E Moisés se vê realizado profissionalmente com isso??? Conte quantas vezes ele nega a missão, lendo de onde paramos até o cap. 4, v. 17. Cinco vezes? Pois é... e pelos motivos mais covardes e mesquinhos possíveis.

Moisés sabia a situação do povo. Ele já havia fugido do Egito porque não suportava ver o povo naquela situação e sabia que, se ficasse ali, acabaria se envolvendo (Ex 2,11-15). Javé não fala de uma situação que Moisés não conhece. Moisés só queria fazer de conta que não existia... Mas, em vez de se consumir, a sarça ardia cada vez mais em seu peito.

Olhando para hoje, a realidade juvenil... Quais são os clamores das/os jovens? Quem são o Egito e o Faraó da juventude? E o nosso Moisés? Será ele um justiceiro solitário?

Olhando Ex 3,16; 4,13, veremos Javé orientando Moisés a procurar Aarão e os anciãos. Javé ordenou que Moisés procurasse ajuda, não fosse sozinho. Moisés formou um grupo, formou comunidade.

Ser Juventude, no fim das contas, é isso: Viver em comunidades (as “tribos”), de forma consciente, responsável, articulada, organizada (Moisés fará isso, Aarão aquilo...). E tudo isso para atender ao clamor de um povo. Aliás, povo do qual, a princípio, essa mesma juventude faz parte.

Entreter ou controlar?

Ando sem criatividade pra blogar... Então vou contar uma história:

"Um dia resolvi desenhar uma cidade. Mais... Tentei personificá-la. Pensei nela como um todo. Dei-lhe um corpo. Imaginei seus contornos, sua voz, seu estilo, suas habilidades e competências. Para não faltar com a realidade, olhei mais de perto. Vi seus movimentos, suas cores e seu ritmo acelerado. Quis, por fim, desenhar-lhe um rosto. Que dificuldade... Precisei olhar mais de perto. E então vi uma senhora com o rosto pintado de jovem. E pensei... É este o rosto da cidade onde eu moro."

Nossas cidades são jovens? O shopping, o cinema, as escolas, as rádios, as novelas, as praças, os bares, os esportes midiáticos, a Internet, os automóveis cada vez mais parecidos com naves espaciais, os muros grafitados e os prédios coloridos parecem dizer "sim"! Mas todo esse mecanismo é usado para entreter, informar e promover a juventude, ou para mantê-la sob controle? Por quê???

Intolerância religiosa

Olhem as seguintes imagens...




O que elas dizem pra vocês???

Ecumenismo católico?

Pois bem... Ando pra lá de atarefado e não tenho tido tempo de elaborar textos de mais de 10 linhas.

Então vou começar a fazer uma série de "rapidinhas" e gostaria que os/as amigos/as prestigiassem, contribuindo com seus comentários.

Então lá vai a primeira da série... Mas primeiro:

Acessem meu blog sobre futebol!!! É o blog de um corinthiano apaixonado, mas nem sempre falo do Corinthians! Às vezes falo de comportamento, ética, política, religião... tudo -- claro -- relacionado ao esporte das chuteiras!

http://corintiano-gracasadeus.blogspot.com/

O nome é inspirado num livro do grande Dom Paulo Evaristo Arns, que torcedores de todos os times deveriam ler, independente de falar do Timão! O nome do livro é: "Corintiano, Graças a Deus".

Bom... Já fiz o meu merchan... Agora a rapidinha de hoje:

Um amigo padre me disse que o bispo o convocou para um curso sobre ecumenismo, promovido pela Diocese. Diz o Bispo: "Tu, que anda envolvido com essas coisas, deve ir ao curso para aprender o jeito católico de fazer ecumenismo!"

E aí eu pergunto... Existe um jeito restrito a alguma religião de fazer ecumenismo?

Feliz Páscoa ou aperto de mão???

Por que “Feliz Páscoa”?

“Então é Natal... e o que você fez???”

Ops... música errada!!! Mas a pergunta até que faz sentido...

Eu fico me perguntando: o que realmente desejamos quando dizemos “Feliz Natal”, “Boas Festas”, “Feliz Páscoa”?

Os que me dizem isso não se zanguem; não estou desprezando seus votos! Pode ser dúvida minha, pode ser que os outros saibam o que estão desejando, pode ser que o carente de sentido seja eu.

Mas sabemos mesmo o que significa a Páscoa? E é nisso que pensamos quando nos saudamos?

Então vejamos... Comecemos pelo significado da palavra “Páscoa”. É uma tradução difícil! Para uma maioria, significa “passagem”. Mas este é o significado que a palavra “pessach” adquiriu quando traduzida para o grego e o latim. Outros defendem que o significado seja “cordeiro”, “alimento”, ou “salto”, “pulo”.

Sendo a Páscoa celebrada com uma grande ceia, onde o cordeiro é o prato principal (no caso dos cristãos, o pão é/simboliza o “Cordeiro de Deus”), faz sentido.

Mas, se lembrarmos do Êxodo, da décima praga, onde Javé “pula” as casas hebreias (marcadas pelo sangue do cordeiro nas portas), vemos que também isso é possível.

Talvez não cheguemos a um consenso sobre a tradução, mas sabemos com toda certeza a que eventos concretos esta palavra está ligada. Para judeus, a libertação do Egito; para os cristãos, a ressurreição, que também é uma libertação.

Vencendo a Morte, Jesus nos chama a retomar o Projeto de Vida do Pai!

Logo, desejar uma Feliz Páscoa não é somente ficar na torcida para que as coisas melhorem. Nem esperar que o coelhinho esteja mais gordinho este ano e deixe uma quantidade maior de ovos de chocolate.

Tá... Chocolate é uma delícia!!! Não faz mal comer chocolate, seja na Páscoa, seja em qualquer época do ano! Bom... Comer demais qualquer coisa faz mal, mas... Ah, vocês entenderam, não é mesmo!?!

Desejar uma Feliz Páscoa é, primeiro, assumir o compromisso de que a crucificação de Jesus não tenha sido em vão, que Ele não tenha simplesmente “morrido em meu lugar”, o que me deixaria muito tranquilo, pois nada mais precisaria ser feito.

E é também um convite para que a/o irmã/o junte-se a nós nesta caminhada, rumo ao Reino, um Reino concreto, feito a partir da terra, da realidade humana, aqui e agora.

Um Reino onde todas as diferenças se tornem enriquecimento social, em vez de motivo de guerra. Onde os projetos governistas estejam voltados para todos, em vez de uns poucos. Onde a fome e a miséria sejam combatidas por todos/as. Onde os problemas do/a vizinho/a tenham mais importância do que a variação da bolsa de Nova York, etc.

Portanto, celebrar a Páscoa, desejar uma Feliz Páscoa, só tem sentido na minha comunidade de fé e de vida, entre aqueles/as que não só comunguem os ideais cristãos, mas estejam realmente comprometidos/as com a construção de um mundo melhor!

Fora disso, é mera formalidade, é verniz social, palavras polidas que ajudem a fechar uma venda, a não passar por deselegante, ou simplesmente para finalizar uma conversa.

Mas enfim... e então??? Posso te desejar uma Feliz Páscoa, ou podemos ficar simplesmente no aperto de mãos???

Bom... Depois de um loooooooooongo período de férias, é hora de movimentar este blog! E, pra começar, partilho uma experiência recente (de 05 a 24-Jan-09).

Quase na mesma data em que aconteceu o 9º ENPJ, estive em Vitória-ES, para o Curso de Capacitação Nacional para Assessores/as do CEBI.

Foram 20 dias onde o CEBI proporcionou uma grande partilha de experiências sobre assessorias, além de técnicas de exegese e hermenêutica bíblica. Enquanto o curso lançava os pilares da Leitura Popular, uma leitura de construção coletiva, onde todos partilham o que sabem – e, segundo Paulo Freire, todo indivíduo sabe alguma coisa –, eu transmitia a todo o Brasil a necessidade de uma hermenêutica das Juventudes.

De início, como de costume, vieram algumas resistências. Logo quando eu disse que queria ver, no CEBI, uma hermenêutica das Juventudes, alguém me puxou de canto e disse: “Isso não é coisa do CEBI, menino!” Menos mal que não era um dos coordenadores do curso; era uma participante. Mas o curso foi feito por lideranças dos CEBI’s estaduais. E isso sim muito me preocupou.

Também ouvi alguém dizer que, em sua região, “Fulana” era jovem, MAS era respeitada POR SER catequista. Quando chegou a vez de contar a minha experiência em assessoria bíblica, disse a todos que quero ver chegar o dia em que “Fulana” será respeitada TAMBÉM por ser jovem.

Durante o curso, obviamente me aproximei mais dos jovens. Ao meu lado estava um Pastor Batista de 26 anos. Alguém veio nos dizer que sua primeira impressão sobre nós é que não estávamos lá para levar a sério o curso. Éramos os dois mais animados da turma. Felizmente a convivência desfez esta desconfiança, mas me aborreceu saber que o preconceito foi gerado pelo nosso jeito jovem de ser.

Ouvi, ainda, piadinhas do tipo: “Ah, este é aquele postulante a jovem!” De fato, tenho 32 anos. Algumas pessoas acharam estranho eu querer que o CEBI criasse uma “Dimensão Juventude”. Mas qual o problema em apoiar os jovens? Isso é bem diferente de não querer reconhecer que a fase adulta já chegou.

Felizmente, se por um lado a diferença de idade em relação aos demais participantes causou uma tensão (a esmagadora maioria dos participantes tinha mais de 40 anos de idade), por outro lado o conteúdo do curso me trouxe o que faltava para iniciar, com os jovens de minha região, uma Leitura Popular e Jovem da Bíblia. Com que olhos devo ir aos textos (eisegese)? Como tirar dos textos o que eles dizem, e não o que eu quero escutar (exegese)? Como usar os textos para iluminar uma proposta jovem de seguir a Cristo (hermenêutica)?

Além disso, se fico triste porque alguns CEBI’s estaduais não me deram abertura, pelo menos o CEBI Nacional ficou sensibilizado com a minha luta. Tenho certeza de que não encontraremos objeção a que bons materiais elaborados pela Juventude possam ser divulgados pelo programa de publicações do CEBI.

Se hoje não temos publicações para jovens, a justificativa que me deram é que essa necessidade deve surgir das bases, e que das bases quase nada apareceu em nível nacional. Ou seja... Minha voz é quase única hoje, dentro do CEBI, quando o assunto é Juventude.

Se você, jovem que está lendo esta carta, participa do CEBI em alguma instância, comece a exercitar hermenêuticas jovens em suas assessorias, ou nas assessorias em que você participa. Veja de que forma os textos podem nos ajudar a realizar o protagonismo juvenil. Provoque esse tipo de discussão entre os jovens, mas também com os adultos.

Enfim... Assim que esta experiência demonstrar resultados em minha região, terei o maior prazer em levá-la a outros cantos do país (onde for convidado, é claro!!!), para que o processo possa ser multiplicado e a Juventude possa, enfim, ter na Bíblia uma aliada, em vez de uma repressora.

Sem mais, um grande abraço jovem de um jovem não muito jovem, mas apaixonado pelos jovens!!!

Jornada Ecumênica

"Aqui você tem lugar, você tem! Aqui você tem lugar..."
Semana passada estive na 1ª Jornada Ecumênica da Região Sul do Brasil!

Tivemos a presença de participantes dos 3 Estados (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e também de cariocas, paulistas, baiano(a)s, mineiro(a)s, goianienses (pessoal da CAJU -- Casa da Juventude --, inclusive), além de "hermanos" argentinos, chilenos, bolivianos, uruguaios, paraguaio(a)s e alemã(e)s, entre outro(a)s.

Embora ecumênico, o encontro foi aberto também a participantes do diálogo inter-religioso, como um africanista, umbadistas, espíritas, muçulmanos e budistas.

Foram 3 dias de reflexões sobre Diversidade e Convivência, com enfoques sociológico, bíblico e teológico, além de oficinas super produtivas.

Este ano a Jornada foi aberta a todos os públicos, mas no ano que vem será exclusiva da Juventude. Em virtude deste grande desafio -- e também porque a Juventude sempre tem sede de mais --, criamos (ou melhor: o[a]s jovens presentes à Jornada criaram) a REJU-SUL, uma Rede Ecumênica das Juventudes do Sul do país.

O objetivo da REJU Sul será promover e divulgar eventos e atividades que possam ser realizados em comum pelas diversas denominações cristãs e inter-religiosas e compartilhar em REDE as ações de igrejas, organizações ecumênicas e instituções, voltadas à promoção dos direitos juvenis. Um deles será a Jornada Ecumênica Sul em 2009. Mas espera-se promover também uma transformação social, graças à união dos grupos de diversas crenças.

A idéia é simples!!! No bairro onde moramos, na escola que freqüentamos, em nosso trabalho, nos parques, nas associações e sindicatos, há pessoas de diversas religiões, credos e raças! Essas pessoas sempre estão reunidas em torno de um objetivo comum! Então cabe aos jovens a evangelização, não mais através do convencimento, mas de ações concretas, que levem a mensagem do Evangelho em forma de valores a serem vivenciados, muito mais do que siglas ou nomes a serem seguidos!

Aos mais conservadores... É claro que para nós, cristãos, Jesus Cristo é o Nome acima de todos os nomes! Não se trata de negá-lo, ou igualá-lo a outros! Mas já diz aquela música penitencial: "Hoje, se a vida é tão ferida, deve-se à culpa, indiferença dos cristãos!" Portanto, para facilitar a Convivência e respeitar a Diversidade, deixemos que os sinais -- muito mais do que nossa boca -- falem de Deus, pois se o nome de Jesus cria barreiras hoje deve-se aos nossos atos, muitas vezes incoerentes com a nossa Fé!

Jovem é outro Papo

Bendita seja a Teologia da Libertação! Será que ela sabia as conseqüências de seu discurso, quando resolveu adotar os pobres como lugar social de sua atuação?

Primeiro veio a necessidade de combater o acúmulo, objetivo dos exploradores. Operários, lavradores e outros grupos oprimidos se viram contemplados por uma Teologia dos Pobres.

Alargando a consciência crítica, as mulheres perceberam que o machismo também era uma forma de poder e dominação. Surgia a Teologia de Gênero.

Em seguida, negros, índios e outros povos perceberam que a organização mundial era eurocêntrica. Imediatamente formularam uma Teologia das Raças, Culturas e Religiões.

Aí a Teologia tradicional, conservadora, que não é boba nem nada, descobriu que o segredo das teologias libertárias era a capacidade de se organizar socialmente. Era preciso reagir! E o melhor caminho era incentivar a divisão, o individualismo.

Surgiu, então, a teologia do “salva a ti mesmo”, “preocupa-te com tua alma”, “seja o melhor que puderes” (mas sempre aja sozinho, obviamente).

É um discurso muito atraente, não acham!?! Eles até promovem grandes encontros, com pronunciamentos de grandes líderes espirituais, mas tudo sempre voltado para um “crescimento” individual. O discurso do “seja bom” é, de fato, muito sedutor... Mas ser bom não basta!

Para aumentar o poder de atração, já que está na moda a busca pela “eterna juventude” (e também porque é comum achar que os jovens -- parcela considerável da população mundial -- sejam mais facilmente influenciados), os defensores dessa Teologia “Oficial” desenvolveram discurso, metodologia e vários recursos (áudio-visuais principalmente) voltados para o público juvenil.

O diabo é que esse discurso realmente arrasta! Mas também... Pensem num primeiro encontro! O que a gente leva? Aquilo que somos, ou o que queremos que pensem de nós? Músicas animadas, vestes transadas, dinâmicas e “papos-cabeça” são muito mais atraentes do que sair falando diretamente de pobreza, poder e dominação.

É o mundo adultocêntrico, que faz ferver nos jovens os ideais de fama, honra e reconhecimento, que alimenta os desejos de aventura, competição, novidade, adrenalina... Mas, no fundo, só cria mais e mais mecanismos de manipulação de massas.

É preciso libertar também os jovens!!!

Esta libertação só vai acontecer se, em vez de reproduzirmos o modelo tradicional -- de linguagem aparentemente jovial e sedutora, mas que visa somente os interesses adultocêntricos --, deixarmos os próprios jovens falarem.

Então atenção!!! Os jovens vão falar!!! Eles também querem ter voz e ter vez! Vamos escutar???

Memórias de uma Feira

E viva a cultura brasileira!!! Na segunda quinzena de outubro, representei o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na 23ª Feira do Livro de São Leopoldo/RS. Foram 5 dias de uma experiência muito rica e, ao mesmo tempo, inquietante, da qual faço um breve relato agora.

Minha expectativa, ao chegar, era vender pouco e gastar muito, mas muito português para tornar o CEBI conhecido ao público leigo. De alguma forma, foi isso mesmo que aconteceu. As vendas não foram tão ruins assim, mas a maioria dos visitantes desconhecia o CEBI. Muitos passavam pela banca e, lendo a palavra “Bíblia”, torciam o nariz, sem a menor cerimônia. Outros nem chegavam perto, porque deveria ser alguma propaganda dos católicos (o livro “Rio e Povo” era um dos primeiros, mostrando Dom Cappio de braços bem abertos).

Outros iam além!!! Distribuí uma quantidade enorme de malas-diretas, todas com um “ecumenismo” escrito bem grande na capa. A mão de algumas pessoas parecia pegar fogo quando liam esta palavra e elas rapidamente soltavam o papel, ou me devolviam com alguns desaforos, ou comentários ríspidos.

Uma senhora, por exemplo, chegou à banca e disse: “Agora sim, uma banca que valha a pena!” Comecei logo a falar, apresentei o CEBI e os livros que ela ia olhando. De repente, sem mais nem menos, ela me olhou enfezada, disse: “Eu já conheço a Bíblia!”; deu-me as costas e saiu.

Outro senhor veio todo sorridente, quando viu a logo da Sinodal em alguns livros. Começamos a conversar, mas quando eu falei em ecumenismo, ele me deixou falando sozinho.

Alguns, mais simpáticos, queriam discutir o tema. Aí surgiam várias cenas pitorescas: um senhor queria saber se “esse lance de ecumenismo” tinha a ver com o Paiva Netto; um jovem dizia que se convertera à Igreja Batista, mas acreditava nos santos (de uma forma diferente, segundo ele; nem me atrevi a pedir que explicasse) e nunca deixara o espiritismo totalmente de lado, pois alguns espíritos sempre o orientavam sobre como se comportar na nova fé; outro rapaz queria livros de R. R. Soares...

Teve um que me pediu o livro “Milionários na Bíblia”. Eu disse que sobre milionários não tínhamos muita coisa, mas eu poderia lhe apresentar alguns livros sobre os pobres na Bíblia. Parece-me que ele não gostou muito...

Em geral, os que defendiam o ecumenismo não participavam de nenhuma denominação específica. Mostravam desconforto com as instituições, principalmente a católica (a maioria vinha de uma experiência frustrada neste meio). Diziam que era tudo a mesma coisa, que Deus é um só, e todas aquelas coisas que sempre ouvimos quando tentamos explicar que bicho é esse de “economismo”.

Lembrei-me de mais uma senhora, também defensora do ecumenismo, que dizia não ter necessidade de ler a Bíblia. Ela também não pertencia a nenhuma religião, pois recebia revelações do próprio Cristo. Complexo de inferioridade, talvez... Mas como as pessoas confundem as coisas, não!?!

Por sorte, nem só de cenas pitorescas vive uma feira. No primeiro dia, um jovem se aproximou do livro “Por que Sofrer?” e ficou encantado, pois este subsídio iria ajudá-lo muito em uma pesquisa da Faculdade. Ele faz Filosofia na UFRGS e tem a missão de explanar o tema “Sofrimento”, traçando um paralelo entre Nietzsche e o Cristianismo. O livro irá ajudá-lo com as reflexões bíblicas, coisa que ele procurava, procurava, mas não encontrava; e acabou encontrando na feira, em nossa banca.

Mais uma cena positiva: um professor procurava subsídios sobre Negritude para uma pesquisa, também da Faculdade (Unisinos). Ele tinha que desenvolver pesquisas para uma cadeira que está sendo criada sobre o tema, uma vez que tanto se está discutindo a questão de cotas nas Universidades. Levou três livros.

Outro que se aproximou da banca foi um Pastor da Assembléia de Deus. Ele procurava algo para “enriquecer seus sermões”. Levou um livro sobre os profetas e outro sobre Paulo.

Ao final da feira, muito cansaço e uma preocupação: Como estamos divulgando o ecumenismo em nossas bases? E quem nossas bases atingem? Incentivamos a leitura popular da Bíblia, mas o povão ainda não nos conhece. Eu sei que alguém vai me fazer esta pergunta: “Precisamos ser conhecidos?” Em tom de brincadeira eu sempre respondo: “Creio que sim, mas acho que não!” Em todo caso, creio que é um grande desafio tornarmos a leitura popular da Bíblia mais conhecida e, principalmente, vivenciada, experimentada. Afinal, foi isso que o CEBI pensou, quando me pediu para estar lá na feira, não!?!

Bíblia e Juventude

Já faz mais de 15 anos que ingressei em meu primeiro grupo de base, um grupo de adolescente em Presidente Prudente/SP. Desde lá ouço dizer que os jovens se tornaram prioridade na Igreja, principalmente depois de um tal de Puebla.

Bem é verdade que, de lá pra cá, conquistou-se muitas coisas. Mas os jovens ainda reclamam que estão de lado.

Há uns 5 anos, a CNBB já dizia: “Agora sim! A prioridade nº 1 (a CNBB sempre elege 5 prioridades) serão os jovens!” Basta olhar os temas da Campanha da Fraternidade pra ver se o propósito se cumpriu.

Acostumados a essas promessas que não se cumprem nas bases, os jovens de minha geração se habituaram a agir por conta própria. Até que nos viramos bem, sozinhos. Mas hoje alguns de nós reconhecem -- eu entre eles -- que era necessário um mínimo de valorização e acompanhamento.

Por exemplo, diante do assunto Bíblia e Juventude. Em quantas reuniões usamos os textos fora de seu contexto. Queríamos utilizá-los para iluminar nossas reflexões, mas acabávamos dando-lhes sentidos até opostos ao que eles queriam realmente dizer.

Para falar a verdade, em todos os segmentos da Igreja há uma grande dificuldade em interpretar os textos bíblicos. E o que é pior... Assume-se esta limitação, mas convive-se muito bem com ela.

Participo do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Embora Bíblia não seja o problema -- e sim a especialidade -- da casa, há uma lacuna aí. Publica-se muita coisa sobre gênero, cidadania, negritude, trabalho... Mas nada que contemple os jovens.

Ainda bem que esta questão está vindo à tona. Já a discutimos em nossas Assembléias estaduais e regionais. Agora vem chegando a Assembléia Nacional e certamente tomaremos uma posição, que espero finalmente nos seja favorável.

Mas isso precisa chegar à Igreja como um todo. Principalmente à Igreja popular, aquela que se põe a serviço de todos, especialmente dos mais necessitados.

Essa Igreja, parturiente das CEB’s, sabe que estas têm como um de seus pilares a leitura popular da Bíblia. Mas não é o que se vê, na prática. Os jovens ainda encontram enormes dificuldades em interpretar os textos.

E os padres e liturgistas aceitam isso numa boa. O importante é que eles -- os jovens -- encenem os evangelhos, nas missas. Não precisa interpretar os textos: Basta o efeito visual que o teatro proporciona.

Entender os textos? Não... Deixa isso pro padre! Não é ele o responsável pela homilia?

Mas afinal... Contemplando a educação popular, como é possível aproximar Juventude e Bíblia? É necessário dizer aos jovens o que fazer, ou construir com eles uma visão jovem da Bíblia?

O texto fundamental da metodologia cebiana é Lc 24,13-35 (caminho de Emaús). Pois bem...

De acordo com o texto, a pedagogia de Jesus é a mais simples e a mais eficaz possível. Primeiro, ele se põe do (e não “de”) lado, caminha com os discípulos. Pergunta-lhes o que está acontecendo, demonstra interesse pelos seus problemas, quer gerar um clima de cumplicidade. Depois (e somente depois) disso, Ele repassa as escrituras, iluminando a vida daquelas pessoas. Faz com que vejam o que estava diante de seus olhos e eles não enxergavam. Não fala de coisas desconhecidas, mostra que sabe do que está falando, mas que sabe principalmente COM QUEM está falando. Por fim, senta-se à mesa com eles, parte o pão e finalmente é reconhecido. Relembrando os gestos e palavras do Mestre, mas principalmente SE IDENTIFICANDO com o Projeto dele, os discípulos tomam uma atitude: voltam para a zona de conflito (Jerusalém) e encaram o problema de frente.

A reflexão foi rápida e bem sintética. Entretanto, fiz questão de lembrar esta passagem para mostrar que, pelo menos quando o assunto é Juventude(s), somos tentados a ir direto para a partilha. Isso talvez se deva ao fato de já termos feito tantas vezes este processo: com negros/as, mulheres, homossexuais, lavradores/as, operários/as... Mas é preciso fazer novamente! Esse público, sem sombra de dúvida, é diferente dos anteriores.

É necessário um olhar jovem sobre a Bíblia! Desculpem se for ofensivo o que vou dizer, mas vocês não acham leviano demais deixar de lado a parcela preferida da mídia e do mercado? Aliás, já se perguntaram por que o mundo do consumo é voltado para aqueles que teoricamente seriam os filhos e filhas dos donos das carteiras de dinheiro?

O shopping é ponto de encontro dos jovens, possuindo lojas de surfe, calçados e roupas transadas. A moda se preocupa em vestir o padrão de beleza, essencialmente jovem. Os modelos de eletroeletrônicos e automóveis estão cada vez mais joviais. Celulares e Internet desenvolvem tecnologias e jogos voltados para o público jovem. No rádio, as FM só tocam músicas para jovens. Na TV, até as novelas, auto-denominadas “distração para toda a família”, agora estão voltadas para os jovens.

O que isso quer dizer? Será que o Mercado utiliza a mesma linguagem para jovens e adultos? Ou será que os jovens compõem a maioria consumidora do planeta e, por isso, as atenções estão voltadas para eles?

Ainda mais... Se incluirmos aí o universo político, lembrando-nos que este ano é de eleições, veremos não só a quantidade de candidatos jovens -- mostrando uma tendência -- mas o quanto os partidos e candidatos também disputam acirradamente esta parcela da população.

Um exemplo: houve comício em meu bairro, recentemente. Uma baita estrutura, um palco bem localizado e um som de primeira. O comício só foi à noite, mas o dia inteiro ficou tocando um som, para distrair e atrair o público. Vocês conseguem adivinhar os estilos musicais? Pois eu vou dizer: Funk e Eletronic Music. Na opinião de vocês, isso atraiu qual público?

Olhando atentamente, percebemos que o marketing traz uma linguagem jovem, o mesmo não acontecendo com o pensamento, a ideologia por detrás, que é maquiada, sem deixar de ser manipuladora. Entretanto, como diria um amigo meu, “funciona horrores”. Nós, por outro lado, pretendemos fazer educação popular, mas utilizamos sempre a mesma linguagem, independente do público. Como diria uma comediante nada engraçada: “Isso não pode!”

Que tal, então, repensar a linguagem, mantendo o que a educação popular traz de melhor, a saber: a construção coletiva do pensamento? Mais do que uma linguagem jovem, proporcionar uma visão jovem da Bíblia, construída pelos próprios jovens, de posse de ferramentas adequadas?

Fico por aqui, esperando ansiosamente que esse meu questionamento -- e outros que ele possa inspirar --, provoque ótimas novidades para esta Juventude, que eu amo e acompanho desde os tempos de pejoteiro. E pra você? Agora é o momento, ou ainda devemos esperar?